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Que gosto terá?

PaladarEngraçado como a ignorância faz a gente ser bocó.
Por completa bestagem, passei a minha vida inteira recusando novos sabores.
“Eu não gosto.”
“Já experimentou?”
“Não, mas não gosto.”
Quando cresci arrumei outra frase:
“Meu paladar não é curioso.”
Hein?
A primeira vez em que disse isso foi no final de um safari. O guia desceu do jipe catou algumas
amarulas que estavam espalhadas e distribuiu para todos no carro. E eu:
“Obrigada, meu paladar não é curioso.”
Como assim, minha gente?
Quando, criatura tonta, você vai estar outra vez embaixo de um pé de amarula carregado de
frutos maduros?
Talvez esse dia se repita, mas vamos ter de planejar, e…
Melhor esquecer por agora.
Refleti sobre o fato de não ter “paladar curioso”, mas não me endireitei.
Até que um dia fui convidada por um casal de amigos para o almoço.
Eles, exímios cozinheiros, são conhecidos por servirem almoços muito saborosos.
Comigo não foi diferente.
Lá chegando, tudo lindamente arrumado, comida cheirosa, que eles mesmos colocaram em
nossos pratos, igual a restaurante chique.
Risoto de limão siciliano, salmão e cebola caramelada.
O que eu mais gostava daquele belo prato?
Bem, eu só gostava do salmão.
Caso você seja o típico “chato para comer”, vai me entender perfeitamente.
Quando a gente vê algo que não tem a menor intenção de provar e está em uma situação que
não há sequer uma possibilidade de fuga, o jeito mais conveniente de resolver a situação é
tentar desmaiar ou receber um telefonema urgente.
Naquele dia, mesmo tendo essas duas “cartas na manga”, não pensei em nenhuma delas.
O prato à minha frente estava tão bonito que busquei toda a minha civilidade, que nem sei
onde estava escondida, e comecei a comer.
Comi e foi encanto à primeira garfada.
Que gostosura de comida!
Tudo absolutamente delicioso. O salmão perfeito, a cebola um encanto e o risoto… Bem, o
risoto, completamente apaixonante.
Comi e repeti.
Quando terminei de almoçar me sentia a mais importante de todas: tinha experimentado e
sido surpreendida pela gostosura.
Voltei para casa, já completamente viciada em risoto. Falei dele por dias e, hoje, um dos meus
programas preferidos e ir a rodízios e comer como se não houvesse amanhã.
Cada vez que isso acontece, inevitavelmente eu me lamento:
“Que gosto terá, minha gente, uma amarula madura?”

Vívian Antunes.

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