Em tempos em que as redes sociais transformaram opiniões em julgamentos instantâneos, tornou-se comum encontrar críticas ao trabalho dos vereadores. Muitas delas fazem parte da democracia e são legítimas. Afinal, quem exerce um cargo público deve prestar contas à população e estar aberto ao debate. No entanto, também é preciso reconhecer que uma parcela dessas críticas nasce do desconhecimento sobre o que realmente faz um vereador.
A Constituição Federal e as leis brasileiras estabelecem três grandes funções para o Poder Legislativo Municipal: legislar, fiscalizar e representar a sociedade. Essas atribuições caminham juntas e são igualmente importantes para o bom funcionamento de um município.
Legislar significa criar, discutir, alterar e aprovar leis que atendam aos interesses da população e contribuam para o desenvolvimento da cidade. Fiscalizar é acompanhar a aplicação dos recursos públicos. Já representar a sociedade talvez seja a missão mais próxima do dia a dia das pessoas.
É justamente nesse papel de representante que o vereador se torna a ponte entre a população e o poder público. Quando um morador procura um vereador para relatar um problema em seu bairro ou distrito, quando pede melhorias em uma estrada rural, na iluminação pública, na saúde, na educação, na limpeza urbana ou em qualquer outro serviço essencial, o vereador está exercendo a função para a qual foi eleito.
Muitas vezes, a população enxerga apenas as reuniões realizadas na Câmara Municipal, sem perceber que elas representam apenas uma parte do trabalho legislativo. Antes de cada sessão existe uma rotina intensa de atendimento à população, visitas às comunidades, reuniões com autoridades, análise de projetos, elaboração de indicações, requerimentos, pedidos de informação, fiscalização de obras e serviços públicos, além do acompanhamento constante das demandas que chegam diariamente aos vereadores.
Na prática, o trabalho de um vereador não tem hora para começar nem para terminar. O telefone toca nos finais de semana, durante a noite, em feriados e em momentos de emergência. São cidadãos buscando ajuda, orientação ou alguém que possa encaminhar seus problemas aos órgãos competentes. Quem escolhe representar a população sabe que essa missão exige dedicação permanente e disponibilidade quase integral.
É claro que nem toda solicitação poderá ser atendida imediatamente. Muitas decisões não dependem deles, e sim de recursos financeiros ou de questões legais. Ainda assim, cabe ao vereador ouvir, encaminhar, cobrar e acompanhar cada demanda, cumprindo seu papel de representante da comunidade.
Também é importante compreender que a independência entre os Poderes é um dos pilares da democracia. O vereador não existe para concordar automaticamente com tudo, assim como também não deve fazer oposição apenas por fazer. Oposição responsável é aquela que apresenta argumentos, fiscaliza com seriedade, aponta falhas quando elas existem, mas também reconhece os acertos quando eles acontecem. Da mesma forma, apoiar um projeto que beneficia a população não significa abrir mão da fiscalização. O interesse público deve estar sempre acima de disputas políticas.
Infelizmente, vivemos uma época em que é muito fácil fazer julgamentos rápidos pelas redes sociais. Muitas vezes, uma frase isolada, um vídeo curto ou uma informação incompleta são suficientes para formar opiniões precipitadas. Criticar tornou-se, para alguns, quase um hábito, mesmo sem conhecer a realidade dos fatos ou o trabalho desenvolvido nos bastidores.
Isso não significa que vereadores estejam acima de críticas. Pelo contrário. A fiscalização por parte da população é saudável e fortalece a democracia. Mas a crítica justa é aquela baseada em informação, conhecimento e responsabilidade, e não em boatos ou na simples vontade de acompanhar o coro das redes sociais.
Valorizar o trabalho do vereador não é defender uma pessoa ou um grupo político. É reconhecer a importância de uma instituição fundamental para a democracia municipal. Assim como há bons e maus profissionais em qualquer atividade, haverá vereadores mais atuantes e outros menos presentes. Cabe ao eleitor acompanhar esse trabalho, cobrar resultados e fazer sua avaliação nas urnas.
A democracia se fortalece quando existe participação, diálogo, respeito e conhecimento. Antes de criticar, vale a pena conhecer as atribuições de quem foi eleito para representar a população. E quando um vereador percorre bairros e distritos, conversa com os moradores, leva reivindicações aos órgãos públicos e busca soluções para os problemas da comunidade, ele está cumprindo exatamente a missão que lhe foi confiada pelo voto.
Reconhecer esse trabalho não significa deixar de cobrar. Significa apenas fazer justiça a uma função pública que vai muito além das sessões realizadas no plenário. O verdadeiro trabalho do vereador acontece, sobretudo, onde a vida da população acontece: nas ruas, nos bairros, nas comunidades rurais e ao lado das pessoas que depositaram nele a confiança para ser a voz de seus anseios.
Em uma sociedade que deseja crescer, a crítica consciente deve caminhar ao lado do reconhecimento. Afinal, uma democracia forte não se constrói apenas apontando erros, mas também valorizando quem exerce seu mandato com responsabilidade, dedicação e compromisso com o bem comum.
Antonio Donizete de Sousa
Jornalista – MTB 5813